domingo, 2 de agosto de 2009

Taxa Selic: reflexos no mercado de bens e/ou serviços

A queda da atividade econômica nos primeiros seis meses do ano levou o Banco Central a adotar um postura mais desenvolvimentista. Nas últimas reuniões do Comitê de Política Monetária - Copom, chegou-se à conclusão de que a redução das taxas de juros que remuneram os títulos públicos, também conhecida como Selic, poderia servir como estímulo para a economia.

Na verdade isto não vem ocorrendo na proporção que se imaginava, haja vista que o setor financeiro não tem utilizado os movimentos desta taxa para reduzir os juros que cobram para aquisição de bens e ou serviços no mercado brasileiro.

As financeiras trabalham com taxas abusivas lesando o consumidor, este na maioria das vezes necessita do bem e pelo fato de não conseguir comprá-lo à vista, acaba se submentendo às condições impostas por estas entidades no mercado.

Onde mora a justificativa para explicar tal situação? No chamado “spread bancário”. O que vem a ser isto? Nada mais que a diferença entre o preço para capitação do recursos no mercado e sua disponibilização para o correntista ou mesmo para a pessoa que dele necessite.

Para se ter uma ideia do tamanho do problema, vamos comentar sobre a taxa de juros cobrada no cheque especial. Em média as instituições financeiras vêm cobrando por este serviço 8,57% ao mês, cerca de 103% ao ano, fora a capitalização. Comparado com a taxa Selic, se percebe que esta taxa fica 94,4% acima, o que convenhamos não estimula a sua utilização. Se considerarmos que os bancos trabalham com recursos de terceiros e não próprios, o estrago fica ainda maior, o interessante é que para cada depósito feito nas instituições financeiras, estas podem reemprestá-lo até quinze vezes.

Não obstante os custos para os correntistas que fazem uso do cheque especial, há também no mercado financeiro outras formas de crédito dentre elas o crédito pessoal cuja taxa não sai por meno de 5% ao mês ou 60% ao ano.

Um dos pontos que encarecem os empréstimos acima mencionados assentam no risco de inadimplência por parte dos tomadores. No meio este mecanismo é conhecido por assimetria de informações. No caso específico do crédito pessoal e ou consignado esta assimetria pode ser reduzida, já que os descontos para a instuição emprestadora são efetivados em folha de pagamento, retirando assim a possibilidade de que o devedor não venha descumprir com esta obrigação mensal. Neste caso, quando há risco? Quando se empresta para o servidor que não é efetivo. Isto porque a qualquer tempo ele pode vir a perder o emprego. Qual seria a saída? Cobrar taxas maiores para os servidores comossionados e ou temporários e menores para os efetivos. E não colocar todos na mesma situação.

Mesmo que a transação envolva este tipo de risco, o Banco Central não poderia deixar que as instituições financeiras cobrassem taxas de juros muito acima das taxas que remuneram os títulos públicos, isto porque, estas, já cobrem os custos financeiros inerentes a este tipo de operação.

Ao comparar a taxa Selic com a inflação, percebe-se que esta tende a ficar no ano no mínimo 3,75% acima dos níveis esperados, o que em uma economia estabilizada não só cobrirá os custos operacionais como também proporcionará ganhos superiores a 40%, para a autoridade monetária. Que o digam os ganhos das instituições financeiras privadas que trabalham com taxas de juros acima de 100% ao ano.

Na mesma linha de raciocínio não da para entender o porquê de se cobrar em média 1,50%, ao mês para aquisição de veículos e 2,54% no mesmo período para aquisição de outros bens, estando aí incluído o financiamento de imóveis.

A relação custo/benefício para o tomador do empréstimo entre a aquisição de um veículo e a casa própria é mais favorável ao segundo bem. No entanto para instituição financeira tende a ser melhor o bem que gira mais, neste caso o veículo, razão pela qual as taxas de juros destes são menores.

É importante que fique claro que para além dos riscos inerentes a qualquer transação financeira, encarecem também os empréstimos os percentuais de impostos cobrados sobre as operações financeiras, talvez isto explique o porquê de o governo se sentir tão incapaz quando se trata de exercer uma fiscalização maior sobre os ganhos do setor financeiro.

Em que pesem as taxas parecerem baixas como a que nos referimos para aquisição de veículos, ao final do contrato se paga à financeira em torno de 50% a mais do que o valor do veículo à vista na concessionária. Isto vale também para a aquisição de outros bens no mercado.

O que se percebe atualmente é que os movimentos da taxa Selic para baixo não mais servem de estímulos para que os juros de mercado venham a cair, haja vista que os custos financeiros imbutidos nos empréstimos pouco a consideram.

Com isso ganham o governo e as financeiras e perdem o setor produtivo e os consumidores.

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