quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Goiás: novas perspectivas ao desenvolvimento

A princípio a conjuntura mostra-se bastante favorável ao Estado principalmente no que concerne às perspectivas de desenvolvimento econômico. Isto devido ao estágio em que se encontra na atividade industrial e a logística que envolve a conclusão da Ferrovia Norte-Sul. Se por um lado o atraso em relação aos centros mais dinâmicos constitui-se em problema, por outro o fato de não ter consolidado nenhuma cadeia produtiva em seu corte geográfico o coloca em condições singulares perante os efeitos da crise financeira internacional.

Por esta razão muitos goianos ainda não começaram a sentir os efeitos da crise que assola o mercado mundial e o brasileiro. Por que isto acontece? Porque ainda nos encontramos na primeira fase do processo de industrialização e o nosso forte em termos de mercado está centrado na agroindústria e nas atividades de extração mineral.

Nos maiores centros do Estado, 90% dos investimentos se encontram nos setores micro e pequeno, apenas 10% se enquadram em médias e grandes empresas. Os primeiros vêm sentindo a crise em razão da retração de 82% nas vendas enquanto que os médios e grandes a sentem em razão das restrições ao crédito. A indústria goiana está segmentada nas seguintes atividades: frigoríficos, laticínios, fármacos, veículos automotores e de tração, cerâmicas, minérios, alimentos, bebidas e de produtos de origem têxtil.

Em recente seminário de economia em comemoração à Semana do Economista, palestras e debates foram realizados no Auditório da Câmara Municipal de Goiânia, sob a coordenação do Conselho Regional de Economia deste Estado, no sentido de buscar alternativas para o desenvolvimento da Região Centro-Oeste.

Uma das palestras foi proferida pelo presidente da Associação Nacional de Brinquedos, Sinésio Batista, goiano que já ganhou fama em razão de sua perspicácia no mundo dos negócios. Ele trouxe na sua fala contagiante que é preciso ser diferente para espaço nos mercados locais, interestadual e externo. Disse sem meias palavras que o Brasil e o Estado de Goiás têm que deixar de ser compradores e passar a vender, para isso precisam mudar sua política de comércio exterior, ou seja, deixar de vender produtos “in natura” e passar a negociar produtos com maior valor agregado.

O autor deste artigo teve a honra de ser o seu debatedor e mesmo não tendo a mesma experiência em mercado internacional, pôde contribuir pelo conhecimento que tem sobre a economia brasileira e goiana. Iniciei minhas palavras dizendo: “concordo em gênero, número e grau com você, haja vista que as políticas públicas entoadas pelo governo devem ser mais bem trabalhadas no sentido de favorecer ao Estado para que participe da aldeia global de forma mais proativa e não reativa, que verdadeiramente nos põem em condição de ser comprador e não de vendedor.

Os exemplos citados por mim dizem respeito às cadeias do couro, soja, milho, cana-de-açúcar, algodão e de produtos farmacêuticos.

As colocações em relação ao couro não foram tão animadoras, pois disse que estamos distantes de consolidarmos como um polo calçadista. Por que diz isto? Porque não temos uma política de diferenciação para acompanhar o desenvolvimento do couro do nascimento ao abate. E quando este ocorre, o produtor não tem um preço diferenciado dos demais. Aí caberia um incentivo fiscal do governo junto ao frigorífico que remunerasse mais para o produtor que do couro tivesse cuidado. Em um segundo momento o setor oferece outro ponto de estrangulamento. Qual? Do couro cru, salga e “wet blue”, não tem nenhum tipo de incentivo, pelo contrário, há uma desoneração tributária na saída do couro no último estágio mencionado entre aspas e um encarecimento do imposto nas cadeias seguintes: semiacabado, acabado até sua transformação em sapatos, bolsas, cintos, estofamentos e outros derivados desta importante cadeia. Portanto, meus amigos, não se monta um polo calçadista apenas com edificações como vemos em Goianira, mais importante do que edificações são políticas tributárias com incentivos fiscais diferenciados, o que infelizmente ainda não temos. Outra ponderação que fiz foi a respeito dos incentivos fiscais que são dados às tradings para que estas vendam maior quantidade de produtos com valor agregado e em menor quantidade in natura, fato que não vem se verificando, tornando na prática o incentivo fiscal para este fim inelástico ou sem finalidade.

Vamos saber por quê. Historicamente os recursos repassados pelo Banco do Brasil aos produtores de nossas culturas não chegam no momento certo em que pesem os lucros que a instituição vem obtendo, razão pela qual quem financia estas culturas são as tradings. Estas por sua vez recebem por parte do Estado os incentivos e benefícios fiscais para que agreguem maior valor aos produtos de origem goiana. O problema é que estas tradings também têm suas negociações financiadas, querem saber por quem? Pelos grandes oligopólios do setor, leia-se: Cargil, Monsanto, dentre outras, cujos compromissos são maiores com o mercado externo do que com o interno e o governo. Resultado, os produtos saem do Estado de forma in natura e não como óleo, farelo. No caso da soja, há outras derivações que ao todo chegam a 123, que nestas condições jamais serão elaboradas em nosso Estado e por que não dizer também do Brasil. Isto vale para outras commodities como: algodão, milho, café dentre outras.

Na mesma linha de raciocínio ponderei sobre a diferença do que se prega e a verdade sobre o polo farmacêutico de Anápolis, para muitos farmoquímicos. Diferença básica, para ser farmoquímico deveria desenvolver princípio ativo. Por que não o faz? Devido aos custos e riscos da operação, para se ter uma ideia, um princípio ativo não sai por menos de US$ 500 milhões. Dependendo da pesquisa pode ultrapassar a casa dos US$ 1 bilhão. Convenhamos, neste caso também a política de incentivos fiscais para o estímulo do setor também tem sido inelástica. É muito para o Estado e pouco para os laboratórios. Qual a saída? A formação de um tripé envolvendo União, Estado e os laboratórios. Aos dois primeiros caberiam os incentivos fiscais focados no desenvolvimento de pesquisa e desenvolvimento, ao terceiro os investimentos para a realização de tal fim.

Para não alongar, ser diferente na concepção do palestrante que me referi acima é deixar de ser comprador e passar a vender, mas para tanto o Estado necessitará reordenar algumas de suas políticas fiscais no sentido de exportar produtos com maior valor agregado. Caso contrário nossos resultados serão sempre menores do que os dos períodos anteriores, tal como ocorreu com as exportações do mês de julho em relação a junho, que acumulou perdas de 31,9%.

Em julho nossas exportações alcançaram US$ 327,6 milhões, enquanto as importações atingiram US$ 260,2 milhões, o superavit foi de US$ 67,3 milhões, resultado inferior em 49% quando comparado ao mesmo período do ano anterior. Neste montante, o agronegócio participou com 77,3%. Sendo 49,4% referente à soja – do total, 95% foi negociado in natura reforçando a afirmativa do palestrante e deste autor. O segmento ligado à carne foi responsável por 22,9%, sulfetos de minérios 9,02%, ferro ligas 7,89%, açúcares com 2,81% e couros com 1,34%. As importações foram de 39,9% no segmento de veículos e acessórios, 18,67% de produtos farmacêuticos e 11,02% de adubos e fertilizantes, o restante de segmentos diversos com expressão. Perspectivas de desenvolvimento existem, o que precisamos é começar a quebrar os paradigmas.

Disponível em: http://www.dm.com.br/materias/show/t/goias_novas_perspectivas_ao_desenvolvimento

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