sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Uma reflexão sobre as exportações goianas

A economia goiana vem passando nos últimos anos por profundas modificações, isto porque no início década de 70 produzia-se no Estado apenas para subsistência, sem a incorporação de técnicas que pudessem tornar os produtos advindos deste corte geográfico competitivos no mercados interno e externo.

O esgotamento das fronteiras agrícolas nos Estados mais dinâmicos, localizados nas regiões Sudeste e Sul do País, abriu a oportunidade para um melhor aproveitamento do Cerrado na região Centro-Oeste.

Goiás, aproveitando o momento de desconcentração da riqueza proporcionado naquele período por políticas públicas ainda de caráter nacional e, também, pelo processo de modernização agropecuária, criou mecanismos de atração de novos investimentos. As terras de Cerrado até então consideradas improdutivas incorporaram novas técnicas de produção, o que possibilitou o aumento desta com ganho de produtividade.

O arroz, o feijão e a mandioca deram lugar à soja, ao milho e à cana-de-açúcar, a produção deixou de ser direcionada ao mercado local e passou a buscar novos mercados, sobretudo o continente europeu. No campo da pecuária, avanços também foram significativos, destaque ao processo de melhoramento genético, permitindo que outras raças além da girolanda e nelore passassem a desfrutar de suas pastagens. O rebanho cresceu, alcançando nos dias atuais mais de 19 milhões de cabeças, com ênfase à produção de carne, leite e derivados.

As políticas públicas de desenvolvimento regional centradas em subsídios fiscais (incentivos e benefícios fiscais) e, também, financeiros, estes últimos puxados pelo Fundo Constitucional do Centro-Oeste, permitiram não só a criação, expansão e o deslocamento de importantes complexos agroindustriais para o Estado, estimulando com isso o agronegócio, que atualmente representa 74,5% de nossas exportações.

As políticas de desenvolvimento regional entoadas pelo Estado asseguraram o início do processo de diversificação produtiva, contemplando também outros segmentos da atividade econômica.O destaque ficou para o setor farmacêutico, metal-mecânico de máquinas e implementos agrícolas e o automotivo.

Feito estas considerações iniciais, interessa mostrar como foram as exportações no Estado em agosto do corrente ano, seus ganhos e perdas e ainda o que deve ser melhorado para que o Estado se insira de forma ainda mais positiva no cenário internacional.

No mês em questão, o superavit foi de US$ 112,9 milhões, onde as exportações alcançaram US$ 382,1 milhões e as importações US$ 269,2 milhões. Em que pesem as ações voltadas à diversificação produtiva, o complexo de soja, segundo a Superintendência de Estatística e Planejamento do Estado de Goiás, ainda se constitui no principal item da pauta de exportações, tendo no período sido responsável por 46,2% destas, seguido pelo complexo carne, com 17,8%, e sulfetos de cobre, 11,6%. Os segmentos relacionados responderam juntos por 75,6%, o restante encontra-se distribuído em atividades de menor expressão.

Nos últimos anos têm sido recorrentes as visitas de autoridades e empresários, capitaneados pelos governos do Estado, em outros países, em busca de novos mercados para os produtos goianos, fato este que se verificou no mês passado, com visita à China e à Rússia.

Apesar dos esforços realizados no comparativo com o mesmo período do ano passado, as exportações goianas caíram 15,8%, a explicação para o fato assenta no estado de crise vivenciado, principalmente, pelos compradores dos produtos goianos, localizados na Ásia, Índia e Europa, pela retração no preço das commodities e também em razão da desvalorização do dólar.

A China tem se colocado como maior compradora, no período adquiriu 23,7% dos produtos goianos, seguido pela Espanha com 14,3%, Índia 8,2%, Rússia 3,7% e Hong Kong com 3,5%.

Na pauta de importações destacaram-se no mês, e têm sido recorrentes nos últimos anos, veículos automotores, tratores, partes e acessórios (45,9%), fertilizantes (15,9%), produtos farmacêuticos (12%), reatores nucleares (9,8%), produtos químicos orgânicos (4,6%), grupo este que representa 87,7% do total importado.

A Coreia do Sul tem sido a maior vendedora de produtos para o Estado, no mês esta representou 12,3%, seguido dos Estados Unidos com 10,7%, Tailândia 6,2%, Belarus 5,1%, Suíça 5,0% e Rússia 4,0%.

Ao analisar a corrente de comércio (exportações + importações), percebe-se que estamos crescendo de forma quantitativa e não qualitativa. Grande parte de nossas exportações é realizada por tradings, financiadas por grandes oligopólios, cujo interesse maior está em produtos “in natura” de baixo valor agregado, o que a meu ver tem comprometido em parte a qualidade dos nossos produtos, quando comparados com os que importamos.

A imposição dos oligopólios nos coloca na condição de eternos vendedores de produtos de baixo valor agregado e compradores de produtos de alto valor agregado. Para que a situação se inverta é preciso que o governo federal disponibilize o financiamento a tempo e hora aos produtores, principalmente os de soja e cana-de-açúcar, para que estes não tenham que se financiar via tradings, e estas via oligopólios, cujos interesses maiores se revertem para a agregação de valor no mercado externo e não em Goiás, ou em qualquer outra parte do País.

O governo estadual também deve continuar fazendo sua parte, qual? Buscar o fortalecimento das relações com os parceiros atuais e conseguir novos, principalmente que demandem produtos com maior valor agregado produzidos no Estado. Outro ponto que deve ser atacado pelo Estado com mais ênfase é o estímulo via incentivos e benefícios fiscais para produção de bens e serviços intermediários, ou seja, produtos que são finais para seus segmentos, mas que compõem a finalização de produtos em outros segmentos, leia-se peças e acessórios, fato que ocorreu com o Estado de São Paulo ainda na década de 70 e deu novo impulso ao seu processo de desenvolvimento.

O alinhamento político com o governo federal, neste caso, se justifica, haja vista que Goiás necessita de instrumentos que melhorem a competitividade de seus produtos, para tanto carece de maior parceria com o governo central, este por sua vez precisa implementar uma política de comércio exterior que não se sustente apenas nas diferenças das taxas de câmbio, como atualmente, pois o direcionamento da política econômica leva o Banco Central a optar por uma política monetária que, se por um lado mantém os níveis de inflação baixos, por outro tem estimulado a especulação em torno dos títulos financeiros nacionais, o que implica em desvalorização do dólar, dificultando as exportações de commodities em razão da concorrência externa, prejudicando principalmente Estados como Goiás, cujo agronegócio tem se constituído, ao longo dos últimos anos, no principal produto de negociação internacional.

Fica aí mais um ponto de reflexão para os membros dos governos federal e estadual que lidam diretamente com as nuances que envolvem a política de comércio exterior, os colocando de forma proativa e não reativa.


Disponível em: http://www.dm.com.br/materias/show/t/uma_reflexao_sobre_as_exportacoes_goianas

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