quarta-feira, 3 de junho de 2009

A instabilidade do dólar no Brasil

A opção por parte da autoridade monetária por uma política monetária restritiva no que tange a circulação de moeda no mercado interno, combinado com o processo de assimetria de informações no mercado financeiro e o chamado spread bancário, tem deixado a taxa de juros que remuneram os títulos públicos no mercado interno em 9,75% muito acima da taxa de juros praticada no mercado americano em um cenário de crise financeira internacional.

Como a economia é integrada pelo processo de globalização dos mercados financeiros e de bens e serviços, os investidores, cuja lógica assenta na maximização do capital em um tempo mais curto, deixam de lado a atividade produtiva, para tão-somente buscar seus dividendos nos mercados financeiros.

Se por um lado este movimento em direção ao mercado financeiro garante um fluxo de recursos para este mercado, de outro alimenta o processo de especulação financeira na economia cuja taxa de juros fica bem acima da média que se paga no mercado externo.

Este é o caso específico do Brasil nos últimos nove anos. Ao optar por taxas de juros mais elevadas, derrubam a renda no mercado interno ou mesmo limitam sua capacidade de crescimento. Por um lado, este tipo de política mantém as taxas de inflação abaixo de um dígito, por outro, facilita as exportações, isto porque, ao comparar os preços relativos desta economia com o de outros no mercado externo, os daqui ficam inferiores, dando com isso maior competitividade aos nossos produtos.

O que este contexto tem a ver com a instabilidade do dólar na economia brasileira? Tudo. Por quê? Ao ampliar as exportações brasileiras, nossas reservas internacionais se elevam, com elas, aumenta a circulação de moeda nacional no mercado interno. Haja vista que o valor dos dólares que entram no mercado são convertidos em moeda nacional e lançados no mercado. Como a política do governo é manter as taxas de inflação baixa, este ente federado através do Banco Central, lança títulos públicos no mercado para neutralizar os efeitos do aumento da circulação de moeda no mercado interno.

Para tanto, tem que tornar seus papéis atrativos e o fazem mantendo suas taxas de juros bem acima do que se paga em média nos outros mercados. Resultado desta prática atrai para o mercado brasileiro muito mais recursos direcionados à especulação financeira do que propriamente à atividade produtiva.

Com o interesse dos investidores sendo maiores para os papéis brasileiros, a demanda por dólares no mercado recua, com isso, passa a ter mais moeda estrangeira do que o necessário. Se isto não bastasse para desestabilizar o câmbio, a própria crise financeira internacional acaba contribuindo para o agravamento desta situação, pois com ela a demanda global por produtos brasileiros continua baixa.

Com os pedidos externos em queda, as empresas do setor não antecipam a compra de dólares para manter seus investimentos em alta, sendo assim, não ocorre desequilíbrio entre oferta e demanda por esta moeda. Não havendo este descompasso em um regime de taxa de câmbio flutuante favorável à moeda estrangeira, e, sim, em favor da moeda nacional, pelos juros se manterem acima da média paga no mercado externo, o dólar irá desvalorizar em relação ao real e este, por sua vez, irá se valorizar em relação ao dólar, por esta razão a moeda americana fechou a semana sendo cotada abaixo de R$ 2.

Há outro dado que pode agravar esta situação no mercado de câmbio. Qual? O fato de empresas nacionais e/ou internacionais voltarem a contrair empréstimos em moeda estrangeira pelo fato de que as taxas de juros lá serem menores do que as daqui e aplicarem no mercado financeiro brasileiro. Isto ampliaria ainda mais o apelo por moeda nacional derrubando mais a cotação da moeda americana frente à brasileira.

Qual a saída para mais este problema? Recolocar a economia brasileira na rota do crescimento. O governo não está fazendo isto? Está de forma equivocada. Por quê? Por um lado, estende a mão para o mercado interno reduzindo o IPI, de alguns setores chaves para o crescimento da economia; por outro, insiste em manter as taxas de juros em patamares que continuam atraindo especuladores.

Com isso, você está querendo me dizer que o desequilíbrio que vem ocorrendo no mercado de câmbio no Brasil é porque aqui a taxa de juros, embora esteja em queda, ainda continua bastante elevada. É exatamente isto.

A taxa de juros elevada vem criando um descompasso em relação tanto à taxa de câmbio como para o crédito. O reflexo no mercado de câmbio pode ser notado pela queda do dólar em relação ao real. Já o reflexo para o mercado interno pode ser visto pela redução do quantitativo de máquinas e equipamentos vendidos e pela queda da atividade econômica, como ocorreu no fechamento do primeiro trimestre em praticamente todos os setores. O setor de bens de capital que estimula o crescimento de qualquer economia, no País, caiu no período 12,98%, e nos últimos seis meses, 32,9%.

Eis aí, meus amigos, o que uma taxa de juros elevada pode provocar em uma economia, principalmente em tempo de crise financeira mundial. Não seria a hora de começar a modificar este quadro.

Disponível em: http://www.dm.com.br/materias/show/t/a_instabilidade_do_dlar_no_brasil

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