quinta-feira, 7 de maio de 2009

Os primeiros sinais de recuperação da economia

Em meio à instabilidade dos mercados, tendo em vista os efeitos ainda latentes da crise financeira mundial, algumas economias, cada uma à sua maneira, ensaiam os primeiros passos em busca da recuperação de suas atividades econômicas.

Nos Estados Unidos da América, onde tudo começou, e que os efeitos da crise foram mais intensos, o desemprego já chegou em 9%, podendo se ampliar, em 2010, para 9,6%.

No rol das economias desenvolvidas, a Espanha é a que mais vem sofrendo com o desemprego, pois suas taxas já alcançaram 17,1%, desestabilizando por completo seu mercado de trabalho. Haja vista que porcentuais elevados como este deixam os trabalhadores que estão exercendo suas funções nas empresas, entidades civis representativas e mesmo o governo apreensivos, com a possibilidade de serem substituídos por trabalhadores com menores salários. Não obstante aos problemas mencionados, ainda ficam sem condições de negociar melhores salários quando de seus dissídios.

Este é o cenário em tempos de crise, e mesmo de retração da atividade econômica fora de um estado de crise.

O Brasil e a Alemanha apresentam atualmente 8,7% de taxa de desemprego, praticamente a metade da Espanha, mas uma situação não menos grave para os trabalhadores que também se vêm em situação de instabilidade empregatícia. Nos dois países, a demanda por máquinas, equipamentos e também para expansão de suas unidades industriais caiu, grande parte em razão da redução do volume de crédito e das dificuldades para alocar recursos junto ao setor financeiro.

No Brasil, a queda na aquisição de bens de capital foi de 9,4%; na zona do euro, os percentuais ficaram em 11,2%; nos Estados Unidos, a queda na demanda por estes bens foram de 14,7%, seguido do Reino Unido, com 11,4%, e Japão, com 10,7%. O resultado não demorou a aparecer, ou seja, queda na atividade econômica destas economias no primeiro trimestre de 2009, quando comparados ao mesmo período de 2008.

Um dos maiores problemas trazidos pela crise aos mercados repousa na desconfiança dos investidores acerca das reais possibilidades de recuperação dos mercados. Para se ter uma ideia da gravidade do problema, nos Estados Unidos, em janeiro de 2008, o grau de confiança era de 96,9%; com a crise, esta caiu para 55,3% em novembro do mesmo ano. Após uma série de intervenção do Tesouro Americano no mercado, transferindo recursos financeiros para bancos e montadoras, é que os sinais de recuperação começaram a aparecer. No mês passado, a confiança subiu para 61,9%, mas ainda está distante do início do ano passado.

Um ponto positivo ainda naquele mercado está no número de unidades residenciais que foram construídas e comercializadas. No mês de outubro próximo passado, os números deste segmento alcançaram 777 mil unidades. Em janeiro deste ano, caíram para 477 mil unidades e no mês de fevereiro voltou a subir, alcançando 583 mil unidades. Resultado direto do alongamento dos financiamentos e da redução das taxas de juros internas para 0,5%, menor do que a nossa em 10,75%.

Naquela economia e em outros continentes importantes, como o europeu e o asiático, a política monetária utilizada no curto prazo tem sido a expansionista, com taxas de câmbio flutuantes e perfeita mobilidade de capitais, diferentemente daqui, cujo apelo é meramente restritivo. Enquanto nestas economias os mercado internos dão os primeiros passos em direção à reação, aqui, se não fosse a redução do IPI para segmentos pontuais, dentre eles, veículos, eletroeletrônicos, eletrodomésticos linha branca e o de materiais de construção e os incentivos e benefícios fiscais estaduais para estes e outros segmentos, dificilmente estaríamos convivendo com algum tipo de recuperação. Uma vantagem a mais que temos é que nosso sistema bancário não apresenta problemas, com isso, na medida em que melhorar o cenário externo no que tange à concessão de financiamentos e ampliação do crédito, a economia brasileira tende a levar vantagem sobre as demais.

Em que pesem as diferenças, a economia nacional, muito embora pratique uma política seletiva e excludente, também começa a dar os primeiros passos rumo à recuperação. O que pode ser visto pelo aumento do consumo de energia elétrica, que saltou de 1,2% em outubro de 2008 para 7,9% em março de 2009.

Um outro dado relevante diz respeito ao montante de concessão de crédito. Em agosto do ano passado, o valor foi de R$ 2,51 bilhões; em outubro do mesmo ano, o quantitativo liberado foi menor, ficando em R$ 2,23 bilhões. A reação veio em março de 2009, com R$ 2,47 bilhões, apenas R$ 7,0 bilhões a menos do que no período que antecedeu a crise.

O complicador está no percentual de juros por operação, forçando os consumidores a estenderem muito seus financiamentos para encaixarem os valores das prestações dentro de seus salários. O que a princípio parece bom, depois não é visto da mesma forma pelo consumidor, já que os mesmos passam vários anos pagando por um bem que se desgasta diariamente – o melhor exemplo se verifica com veículos.

O outro são os créditos consignados com desconto em folha que acompanham o devedor por longos anos, neutralizando qualquer efeito de aumento dos salários. Com todas as benesses dadas em relação à redução do IPI, os financiamentos para aquisição de veículos não saem por menos de 30% ao ano, os créditos para o setor produtivo estão na casa de 50% ao ano e o de consignados com desconto em folha em cerca de 31%. Para uma inflação inferior a 5%, percebe-se o quanto o consumidor, empresas e trabalhadores vêm sendo penalizados.

Pelo visto, a política monetária adotada no Brasil visa manter as exportações elevadas, fato que não vem ocorrendo. Nos primeiros meses de 2009, em comparação com o mesmo período de 2008, as exportações foram 17,4%. menores. Os setores mais afetados foram pela ordem: couros e peles, com -57%; óleos combustíveis, -57%; ferro e aço, com -52%, suco de laranja, com -47%. Os setores que apresentaram melhor desempenho foram: açúcar bruto, + 85%; soja, +49%; milho; +41%; e fumo em folha, com +15%, ou seja, só commodities.

A grande aposta tem que ser nos mercados internos, já que a demanda global por exportações caiu consideravelmente com a crise nas grandes economias, como Japão, -46,9%; China, -19,7%; Brasil, -19,4%; Alemanha, -18,2%; Estados Unidos da América, -16,7%.

Fica aí a esperança de dias melhores desde que, principalmente o Banco Central Brasileiro deixe o conservadorismo de lado e aposte no curto prazo em uma política monetária expansionista com taxas de câmbio flutuantes e perfeita mobilidade de capitais.

Disponível em: http://www.dm.com.br/materias/show/t/os_primeiros_sinais_de_recuperacao_da_economia

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