quinta-feira, 2 de abril de 2009

Passando a limpo

O cenário econômico vem dividindo espaço com o político, principalmente no Brasil, isto porque ambos encontram-se mergulhados em crises. O econômico por conviver diretamente com os efeitos nefastos da crise financeira mundial, enquanto que o político por conviver com o peso de uma crise moral.

Para muitos, o cenário político não provoca nenhum reflexo ao cenário econômico, enquanto que, para outros, não há como dissociá-los. Na economia brasileira, os desmandos das administrações públicas, somados aos dos parlamentos, têm afetado diretamente as contas públicas, contribuindo para o desequilíbrio fiscal de seus entes federados.

Como se não bastassem as verbas de gabinetes mal aplicadas e o excesso de diretorias no Senado, agora vêm à tona os gastos com publicidade e propaganda do governo federal, que superam a casa dos R$ 2 bilhões ao ano e, também, os gastos com passagem aérea dos congressistas, cujo valor por cabeça fica em R$ 33 mil mensais, o suficiente para cobrir os gastos diários de cada um, com a vinda pela manhã de seus Estados para trabalhar e o retorno no período da noite para esses mesmos Estados.

O gasto mensal com passagens aéreas, considerando a existência naquela casa de 500 deputados federais, soma R$ 16,5 milhões por mês e R$ 198 milhões por ano. Considerando que o gasto não seja aumentado nos próximos quatro anos, só no segmento de passagens aéreas, aquela Casa de Leis irá consumir dos cofres públicos R$ 792 milhões. Pergunta-se: a produção nesta Casa de Leis compensa tal gasto a ser pago pela população brasileira? A meu ver não, isso sem contar com os outros gastos ainda não levantados pela imprensa.

Pergunto: isto de fato acontece? Vir pela manhã para trabalhar junto às grandes causas que a nação espera e retornar à noite, exaustos pelo clima dos debates que naquela casa se aflorou. Ou não? Pelo visto, chegam às segundas e continuam retornando às quintas-feiras, em meio aos escândalos patrocinados por grande parte dos membros daquelas casas, totalmente descompromissados com o que o regime democrático requer.

Quem paga a conta desta farra? Nós, brasileiros. A que preço? Com uma das maiores cargas tributárias do mundo, prejudicando não só a produção e a comercialização dos produtos pelas empresas, como também o bolso dos trabalhadores, sobretudo os de baixa renda, que, não tendo como manter consultores tributários, comprometem, se não toda, grande parte de suas rendas, com o pagamento dos impostos indiretos, que também incidem sobre os alimentos, vestuários e/ou serviços de energia elétrica e o saneamento básico.

E o que diríamos dos serviços prestados pelos entes federados nas suas mais variadas esferas de atuação? São de péssima qualidade, principalmente aqueles relacionados à satisfação das pessoas de baixa renda, a saber: educação e saúde.

E o que dizer da segurança? Esta não perde em nada para as duas primeiras. Por quê? Por um lado não se dá ao policial o devido treinamento e as condições psicológicas, materiais e financeiras para o exercício de suas profissões de forma plena. Por outro, as políticas públicas adotadas pela autoridade monetária não vêm estimulando o aumento da atividade econômica e por conseguinte a consolidação de novos empregos, leia-se (saldo entre admissões – demissões). Percebe-se uma relação direta entre o aumento do desemprego e o dos índices de violência verificados no País.

Nada como dar início a um processo de passar a limpo os poderes constituídos no Brasil. Em Goiás, demos início a este processo em 1998, como se os fatos anteriormente ocorridos não voltassem a se verificar nos anos subsequentes. Tomando como exemplo a gestão da Celg, percebe-se que não houve mudanças, tudo continua como antes. Passivos crescentes e a descoberto, ano após ano, colocando em cheque a própria contabilidade pública e o papel das auditorias independentes, como em matéria veiculada na imprensa, tendo como principal devedor o próprio Estado. Mais quem é o Estado? O Estado não tem dono e as responsabilidades de quem o dirige se esgotam em quatro, oito, 16, 20 ou mais anos, se a população assim o entender. Deveria ser sempre assim? Não, se o parlamento responsável pelo julgamento das contas destes governos as julgasse de forma técnica e não política. Como não o fazem, tudo continua como antes na terra de Abrantes. E o que vem depois? Dão início a movimentos, principalmente junto às esferas de poder, para a volta daqueles que um dia já estiveram lá? Isto acontece pela inexistência de novas lideranças? Não, pelas benesses que lá existem e pelo custo financeiro para se chegar lá.

O que tem a crise financeira mundial a ver com as questões aqui levantadas? De forma direta nada, mas indiretamente sim. Por quê? Com a crise, a insegurança se instala tanto nos mercados financeiros como nos produtivos, reduzindo assim as possibilidades de financiamentos para que os segmentos de bens e/ou serviços operem com tranquilidade.

No primeiro trimestre deste ano, as empresas já acenam com a redução de 33% de seus investimentos em bens de capital, seguidas de perto pela atividade comercial, que tende a reduzir seus negócios em até 32%. Os maiores impactos ocorrerão na atividade econômica e nas receitas tributárias dos Estados.

Concluindo: se não bastassem os problemas de ordem econômica e financeira trazidos pela crise e tantos outros de ordem moral, provenientes das instituições democráticas brasileiras, teimam em não sair dos noticiários, alimentando não só a instabilidade do mercado como também a indignação da sociedade.

Disponível em: www.dm.com.br/materias/show/t/passando_a_limpo

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