domingo, 19 de abril de 2009

Retrato da crise

Os últimos meses têm sido marcados por uma série de tentativas das autoridades monetárias espalhadas ao longo da economia mundial de minimizar os efeitos macroeconômicos da crise instalada no mercado mundial.

Já fizemos aqui comentários acerca de sua origem, dando conta que a transição do que se pode chamar de globalização econômica para a globalização financeira, ainda na entrada dos anos 70, é quem nos últimos anos deu tom nas grandes economias para que o estado de crise voltasse aos mercados de câmbio, monetário e de bens e/ou serviços.

A história se encarrega de explicar os sucessos e fracassos não só da economia como de todos os elementos que com ela interagem. O apogeu do padrão dólar ouro, combinado com a falência do Estado do Bem-Estar Social, deu ao mercado o reino das ações e ao mesmo tempo permitiu que o exagero novamente se instalasse nos mercados financeiros mundiais.

A transição do mercado de crédito para o de capitais aliado à entrada em operação dos fundos de pensão e de investimentos e o processo de desregulamentação dos mercados financeiros deu à economia uma nova dinâmica em termos de disponibilização de recursos e ao mesmo tempo tornou as economias muito mais instáveis e expostas à formação de crises.

As riquezas construídas no pós-guerra pelas economias que integram o grupo dos países desenvolvidos deram margem para que a aventura no mercado financeiro fosse além do necessário.

Não obstante aos excessos praticados, a ditadura dos mercados passou a sinalizar como as coisas deveriam ocorrer. Novos instrumentos financeiros ganharam força, com isso grandes somas de recursos passaram a ser alocados de forma direta ou através de intermediação financeira.

O lastro para estas operações tinha como pilar de sustentação a economia americana, que, com a flexibilização das taxas de câmbio e juros, passou novamente a deter a hegemonia da economia mundial.

O dólar era o carro-chefe, tendo em vista sua grande aceitação; diante disto, as novas cartas foram jogadas à mesa e as economias que não se adequassem àquela nova ordem veriam seus recursos desaparecerem da noite para o dia, impedindo a continuidade de seus processos de crescimento e desenvolvimento até a época alcançada.

Eis aí, meus amigos, o ambiente em que se formou a crise que ora atinge todos os mercados financeiros na esfera terrestre. Na verdade, o veneno destilado pelos Estados Unidos e pela Inglaterra acabou atingindo em cheio suas economias, desestabilizando os seus mercados e de forma direta e indireta aqueles países que dependem destas economias.

Os problemas ora vivenciados não podem ser jogados apenas a estas economias, pois, no auge da transição do econômico para o financeiro, as economias que atualmente se colocam como emergentes também não fizeram o dever de casa. Tal como suas anfitriãs, criou o ambiente propício à consolidação dos ideários neoliberais.

Ao Estado, o mínimo; ao mercado, o todo. Nada melhor do que retirar as amarras que impediam em tempo real o crescimento do capital. Os defensores desta forma de intervenção estatal já não mais podiam contar que a subordinação do econômico ao financeiro pudesse, em trinta anos, derrubar suas atividades econômicas ao ponto de fechar grandes instituições financeiras e promover um efeito em cadeia que viesse a derrubar não só os seus produtos agregados, como também seus níveis de renda e de emprego.

O grau de especulação presente nos mercados financeiros e políticas monetárias restritivas que as alimentam praticadas principalmente nas economias emergentes como a nossa contribuíram de maneira efetiva para que o estado de crise novamente se instalasse em escala mundial.

O resultado negativo pode ser observado também nas economias domésticas, com a queda da atividade econômica, em que pesem acordos estar sendo fechados sob a bênção dos americanos, como o da semana passada, em que o FMI passará com os recursos das vinte maiores economias a socorrer aquelas consideradas mais pobres.

A intenção foi válida, a questão que se coloca é que entre o discurso e a prática existe uma grande diferença. Não adiantará colocar recursos no Fundo e continuar a praticar internamente políticas monetárias que continuem alimentando o processo de especulação tais como as praticadas pelo Banco Central, cujas taxas de juros estão em patamares muito superiores às praticadas no mercado externo.

O resultado não podia ser outro senão o apresentado no primeiro trimestre do ano, com queda na atividade industrial de todos os Estados brasileiros. Este só não foi pior porque, exceto no Amapá, todos os demais Estados fazem uso de políticas de incentivos e benefícios fiscais, que vêm diminuindo os efeitos nefastos desta crise.


Disponível em: http://www.dm.com.br/materias/show/t/retrato_da_crise

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