terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Brasil: cenários econômicos

A crise financeira mundial que eclodiu na economia globalizada no terceiro trimestre do ano passado trouxe, em princípio, problemas pontuais para a economia brasileira. Isto porque as decisões de investimentos já haviam sido tomadas no primeiro trimestre daquele ano.
Os setores que mais sentiram os efeitos iniciais da crise foram, pela ordem: o de bens duráveis (veículos) e os de semiduráveis (eletroeletrônicos e domésticos). Aos primeiros, o governo reduziu o imposto sobre produtos industrializados; o segundo acabou apresentando alguma reação em razão das festividades natalinas, onde a demanda por estes produtos é maior.
Nos demais setores, os efeitos da crise não se mostrarão no ano que se encerrou maiores problemas, razão pela qual os empregos com carteira assinada, segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego, superam a casa de 1 milhão, levando a taxa de desemprego a fechar o período em 6,8%, o menor porcentual dos últimos anos.
A Confederação Nacional da Indústria preocupada com o cenário internacional realizou uma consulta empresarial entre os dias 6 e 11 de novembro, tendo sido pesquisadas cerca de 400 empresas, onde 18% se referem a unidades de grande porte, 34% de médio porte e 46% de pequeno porte. O resultado foi o esperado e divergiu das colocações feitas pelos burocratas do governo, que afirmavam que a economia brasileira estaria blindada contra a crise. O que naquele mês já derrubava os argumentos do governo, pois 88% dos entrevistados disseram que os seus negócios já estavam sendo afetados diretamente pela crise financeira mundial.
Os principais efeitos apontados pelo setor industrial foram: redução da demanda em 56,8%, aumento do preço de insumos e equipamentos importados em 40,9%, encarecimento do crédito em 37,1%, dificuldade no acesso ao crédito de 32,1% e, finalmente, perdas com operação financeira de 8,8%.
Todos os pontos levantados na pesquisa são importantes; no entanto, um chama mais a atenção, que é a redução da demanda em níveis bastante significativos e que não se recuperam num passe de mágica.
Uma redução neste patamar implica aumento dos estoques, o que, por sua vez, leva a uma redução ou paralisação temporária na linha de produção, efeito que pode ser percebido no segmento de veículos de passeio e utilitários, levando o governo a agir rápido e reduzir o imposto que afeta diretamente o segmento.
A meu ver, outro problema grave apontado na pesquisa foi o aumento do preço dos insumos; isto ocorreu em razão da apreciação da moeda americana. A especulação no mercado acionário elevou a demanda por dólar e sua escassez no mercado acabou facilitando sua variação. Para se ter ideia, no início da crise a moeda americana vinha sendo cotada em torno R$ 1,80, chegou a R$ 3,00, e pelas intervenções da autoridade monetária fechou a semana na casa de R$ 2,33.
O que isto acarreta? Aumento dos preços dos produtos inicialmente no atacado, que necessariamente são transferidos ao comércio varejista. Aumento de preços implica em quê? Aumento dos índices de inflação. Qual o remédio que governo usa? Aumenta os juros, o que, por sua vez, acaba por limitar o crédito. Limitar o crédito, leva a quê? A queda na demanda por recursos? Neste cenário, o que ocorre com a atividade econômica? Reduzem os investimentos e com eles a mobilização dos fatores de produção na atividade produtiva. Qual é o reflexo direto deste movimento? Queda do emprego e da renda. Como se observa esta situação no mercado brasileiro? Fazendo a leitura dos indicadores econômicos e financeiros dos meses de novembro e dezembro da pesquisa.
Se no ano de 2008 os empregos com carteira assinada alcançaram mais de 1 milhão de trabalhadores, as piores quedas ficaram para o mês de dezembro, onde a crise deixou suas marcas principalmente nos setores de bens de capital e de bens e serviços intermediários.
A pesquisa revelou ainda como ficarão os investimentos que tranquilamente trarão reflexos para o ano de 2009. Do total pesquisado, 10% não tinham planos de elevar seus investimentos neste ano, 3% não souberam responder. Para 23% não houve impacto; portanto, estão dispostos a continuar investindo dentro deste percentual se encontram micro e pequenas empresas seguindo a tendência de uma pesquisa realizada pelo Centro de Pesquisas Mercadológicas das Faculdades Alfa no mesmo período do ano passado. Agora para 64% a crise financeira mundial trouxe impacto, o que afetará principalmente o segmento de empresas de médio e grande porte.
Os indicadores de investimentos apontados tendem a retrair o crescimento da riqueza no ano que se inicia. Para modificar tal cenário, irá se requerer do Banco Central mudança de postura. O caminho começou a ser sinalizado na última reunião do Comitê de Política Monetária, com redução na taxa selic de 1%. Caso outras quedas venham a ocorrer, as empresas podem novamente rever seus planos de investimento.
O problema é que em uma economia globalizada as decisões de investimentos não dependem apenas das taxas de juros internas, o cenário internacional é levado em questão. O que temos no mundo? Grandes economias entrando em recessão e abalando mercados muito superiores ao nosso, como o da China, que apresentou queda na produção de 9% face à redução da demanda por seus produtos tanto no mercado americano como no europeu.
Como ficamos neste contexto? Devemos continuar fazendo o dever de casa, sobretudo reduzindo os gastos públicos e equacionando despesas às nossas receitas; com isso, a conta de juros será menor e permitirá aos governos investir com recursos próprios em infraestrutura, mantendo com isso a abertura de novos postos de trabalho com carteira assinada além de reduzir os custos das empresa quando do escoamento de seus produtos em direção a outros mercados.
É possível obter resultados favoráveis em tempo de crise? Perfeitamente, é só ter políticas públicas bem orientadas. Neste cenário, algum Estado no Brasil conseguiu indicadores favoráveis principalmente no tange a novos empregos? Vários, dentre eles, o de Goiás.
Em pesquisa recente do Ministério do Trabalho e Emprego e Cadastro Geral de Empregados e desempregados, de janeiro a dezembro de 2008, Goiás gerou 47.347 novos empregos com carteira assinada, acrescendo 6,24% ao estoque de trabalhadores assalariados.
As atividades econômicas que mais contribuíram para o alcance destes resultados foram, pela ordem: Serviços com 37,2%, seguida do Comércio com 25,3%; Construção Civil, com 18,4%; Indústria de Transformação, 10,0%; e Agropecuária, com 7,2%.
O Estado, mesmo obtendo resultados favoráveis no agregado, também não ficou imune aos problemas de ordem sazonal e conjuntural, afetando com isso os indicadores de emprego do mês de dezembro de 2008.
Como sazonais, exerceram influência para a queda de 3,22% ou o fechamento de 26.814 postos de trabalho situações como entressafra, chuvas e férias escolares. No aspecto conjuntural o que mais afetou foi a eclosão da crise financeira mundial.
No acumulado do ano, segundo a Superintendência de Estatística e Planejamento do Estado de Goiás, todos os setores da atividade econômica apresentaram resultados positivos.
O setor de alojamentos e alimentação abriu no Estado 6.648 novas vagas, o comércio: de administração de imóveis, varejista, de materiais de construção, equipamentos de informática e comunicação foi responsável pela criação de 18.702 novas oportunidades de trabalho.
O setor de transporte e comunicação foi responsável pela abertura de 1.910 novos postos de trabalho, enquanto a construção civil (edifícios e rodovias) gerou 4.875 oportunidades de empregos. A indústria de transformação, embora tenha sido o setor que mais demitiu em razão de uma redução na demanda superior a 50%, ainda fechou o ano com um saldo positivo de 4.736 novos empregos, participando com 10% para o total de empregos formais criados.
Que política funcionou como diferencial para que os Estados e em particular o de Goiás alcançasse indicadores sociais tão favoráveis? A de benefícios e incentivos fiscais. Por quê? Os benefícios fiscais recaem principalmente sobre o setor de serviços, enquanto os incentivos fiscais sobre a logística, o comércio exterior e a atividade industrial. Então, os subsídios fiscais beneficiam apenas as indústrias? Não, beneficiam todos os setores da economia brasileira e goiana.
Concluindo, por esta e por outras razões aqui não tratadas é que devemos dizer não ao substitutivo de reforma tributária, já ele acaba com qualquer possibilidade de concessão de benefícios e incentivos fiscais.

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