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domingo, 19 de abril de 2009

Retrato da crise

Os últimos meses têm sido marcados por uma série de tentativas das autoridades monetárias espalhadas ao longo da economia mundial de minimizar os efeitos macroeconômicos da crise instalada no mercado mundial.

Já fizemos aqui comentários acerca de sua origem, dando conta que a transição do que se pode chamar de globalização econômica para a globalização financeira, ainda na entrada dos anos 70, é quem nos últimos anos deu tom nas grandes economias para que o estado de crise voltasse aos mercados de câmbio, monetário e de bens e/ou serviços.

A história se encarrega de explicar os sucessos e fracassos não só da economia como de todos os elementos que com ela interagem. O apogeu do padrão dólar ouro, combinado com a falência do Estado do Bem-Estar Social, deu ao mercado o reino das ações e ao mesmo tempo permitiu que o exagero novamente se instalasse nos mercados financeiros mundiais.

A transição do mercado de crédito para o de capitais aliado à entrada em operação dos fundos de pensão e de investimentos e o processo de desregulamentação dos mercados financeiros deu à economia uma nova dinâmica em termos de disponibilização de recursos e ao mesmo tempo tornou as economias muito mais instáveis e expostas à formação de crises.

As riquezas construídas no pós-guerra pelas economias que integram o grupo dos países desenvolvidos deram margem para que a aventura no mercado financeiro fosse além do necessário.

Não obstante aos excessos praticados, a ditadura dos mercados passou a sinalizar como as coisas deveriam ocorrer. Novos instrumentos financeiros ganharam força, com isso grandes somas de recursos passaram a ser alocados de forma direta ou através de intermediação financeira.

O lastro para estas operações tinha como pilar de sustentação a economia americana, que, com a flexibilização das taxas de câmbio e juros, passou novamente a deter a hegemonia da economia mundial.

O dólar era o carro-chefe, tendo em vista sua grande aceitação; diante disto, as novas cartas foram jogadas à mesa e as economias que não se adequassem àquela nova ordem veriam seus recursos desaparecerem da noite para o dia, impedindo a continuidade de seus processos de crescimento e desenvolvimento até a época alcançada.

Eis aí, meus amigos, o ambiente em que se formou a crise que ora atinge todos os mercados financeiros na esfera terrestre. Na verdade, o veneno destilado pelos Estados Unidos e pela Inglaterra acabou atingindo em cheio suas economias, desestabilizando os seus mercados e de forma direta e indireta aqueles países que dependem destas economias.

Os problemas ora vivenciados não podem ser jogados apenas a estas economias, pois, no auge da transição do econômico para o financeiro, as economias que atualmente se colocam como emergentes também não fizeram o dever de casa. Tal como suas anfitriãs, criou o ambiente propício à consolidação dos ideários neoliberais.

Ao Estado, o mínimo; ao mercado, o todo. Nada melhor do que retirar as amarras que impediam em tempo real o crescimento do capital. Os defensores desta forma de intervenção estatal já não mais podiam contar que a subordinação do econômico ao financeiro pudesse, em trinta anos, derrubar suas atividades econômicas ao ponto de fechar grandes instituições financeiras e promover um efeito em cadeia que viesse a derrubar não só os seus produtos agregados, como também seus níveis de renda e de emprego.

O grau de especulação presente nos mercados financeiros e políticas monetárias restritivas que as alimentam praticadas principalmente nas economias emergentes como a nossa contribuíram de maneira efetiva para que o estado de crise novamente se instalasse em escala mundial.

O resultado negativo pode ser observado também nas economias domésticas, com a queda da atividade econômica, em que pesem acordos estar sendo fechados sob a bênção dos americanos, como o da semana passada, em que o FMI passará com os recursos das vinte maiores economias a socorrer aquelas consideradas mais pobres.

A intenção foi válida, a questão que se coloca é que entre o discurso e a prática existe uma grande diferença. Não adiantará colocar recursos no Fundo e continuar a praticar internamente políticas monetárias que continuem alimentando o processo de especulação tais como as praticadas pelo Banco Central, cujas taxas de juros estão em patamares muito superiores às praticadas no mercado externo.

O resultado não podia ser outro senão o apresentado no primeiro trimestre do ano, com queda na atividade industrial de todos os Estados brasileiros. Este só não foi pior porque, exceto no Amapá, todos os demais Estados fazem uso de políticas de incentivos e benefícios fiscais, que vêm diminuindo os efeitos nefastos desta crise.


Disponível em: http://www.dm.com.br/materias/show/t/retrato_da_crise

Espelho do mercado de trabalho no Brasil

O mês de março de 2009 dá sinais ainda bastante tímidos de recuperação no saldo entre admitidos e demitidos segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados – Caged, isto porque gerou no período 1.419.511 novos empregos formais e demitiu 1.384.693 trabalhadores, praticamente neutralizando os resultados alcançados.

O saldo real entre admitidos e demitidos foi de 34.231 postos de trabalho, crescimento de 0,11% em relação ao mês anterior. Ao se comparar estes resultados com o dos meses de novembro e dezembro do ano passado, combinado com o mês de janeiro do ano em curso, cujo desempenho foi negativo, podemos dizer que demos início a processo de recuperação, haja vista que no mês de fevereiro o mesmo saldo ficou em 9.399 postos de trabalho com carteira assinada.

Os setores que contribuíram de forma positiva para o alcance deste resultado foram: Serviços, Construção Civil, Agricultura e Administração Pública. Os dados negativos vieram dos setores ligados à industria de transformação e do comércio. Tanto um como o outro dependem diretamente de crédito para expandir seus investimentos.

Você pode me perguntar, o setor de serviços também não depende de crédito? Depende. Então por que os resultados foram positivos neste setor e negativo nos outros? É simples, quando se extrai deste segmento o comércio varejista e o atacadista, sobra o quê? Intermediação financeira e a administração pública, os demais segmentos, como alojamento e alimentação, não têm tanto peso assim na geração de empregos, já que apresentam uma certa sazonalidade.

Diante disso podemos afirmar que o desempenho modesto no saldo entre admitidos e demitidos pode ser explicado pela opção de política monetária restrita adotada pela autoridade monetária no sentido priorizar dois outros componentes no mercado, que são: manutenção de fluxo de capitais para o País em que pese seu direcionamento ao mercado financeiro e também manutenção dos índices de inflação abaixo de um dígito.

O primeiro componente depende de taxas de juros acima da média praticada no mercado externo para seu deslocamento. Como nossas taxas de juros reais satisfazem esta necessidade do capital financeiro, em que pesem os riscos em função da crise financeira internacional, um grande montante destes capitais continua adentrando o País. O segundo componente depende, além de taxas de juros elevadas, de uma certa contração do crédito, pois assim ocorrendo dificilmente haverá pressão de demanda sobre oferta ocosinando com isso aumento dos níveis de preços e por conseguinte inflação.

Por um lado o governo federal vem conseguindo atender suas prioridades, mais por outro com estas mesmas medidas tem visto sua produção industrial cair mês a mês e também sua atividade comercial. A contração da atividade econômica implica em menor mobilização de fatores de produção, como consequência direta têm-se queda no produto agregado, na renda e nas taxas de empregabilidade.

A saída para a tentativa de equacionamento dos problemas gerados com a opção de política monetária e pela crise financeira mundial tem sido pela via da concessão de incentivos fiscais, tão combatido pelo próprio governo, quando do envio do substitutivo de reforma tributária ao Congresso Nacional.

Dá para entender? Não, quando o peso das decisões recaem sobre o governo federal, ele se movimenta como pode, inclusive indo contra seus próprios projetos. Mais quando estes mesmos projetos tendem a afetar as unidades da federação, ele se faz desentendido e defende a finalização da concessão de incentivos e benefícios fiscais, sob o argumento pobre de que a concorrência entre os Estados em um regime capitalista promove a queda de arrecadação em razão da guerra fiscal que se instala na economia.

É brincadeira este tipo de argumento, quando se sabe que desde a idade média incentivos de ordem fiscal são dados para melhorar a movimentação de espaços econômicos trazendo entre outros efeitos positivos a multiplicação das arrecadações, como as estatísticas oficiais pertencentes à Comissão Permanente do ICMS, registra ao longo dos anos nos Boletins emanados pelo Conselho Nacional de Política Fazendária.

Não fossem os incentivos fiscais advindos do ICMS nos Estados e do IPI do governo federal, os efeitos da crise seriam muito maiores na economia brasileira. Por esta razão os parlamentares para de fato representarem o povo com dignidade devem aproveitar o momento para melhorar suas imagens frente aos escândalos dos últimos dias envolvendo verba de gabinetes, diretorias em excesso, gastos com passagens áreas, inclusive para terceiros, com recursos públicos e rechaçar a ideia de aprovar este substitutivo de reforma tributária, que acaba com as possibilidades de concessão de incentivos e benefícios fiscais, por parte dos Estados e da própria união.

Quem sabe uma medida como essa não seria uma tábua de salvação para a grande maioria daqueles que integram aquela casa de leis e que, envolvidos nestes escândalos que nos envergonham, possam nesta legislatura ainda contribuir para aumentar o saldo entre admitidos e demitidos no País.

Para tanto não se apeguem em palavras jogadas ao vento pelos burocratas do governo federal que defendem a extinção de políticas desenvolvimento regionais centradas em incentivos e benefícios fiscais, mais sim nas estatísticas oficiais de órgãos competentes e de entidades civis representativas do peso de uma Associação Pró-desenvolvimento Industrial do Brasil – Adial Brasil, que com estudos técnicos e isentos, presentes na comissão destacada para o estudo da reforma tributária naquela casa de leis, provou por “A + B” que vinte Estados perdem receita e empregos com o substitutivo e que apenas oito ganham receita, mas também perdem empregos.

É o que se espera.

Disponível em: http://www.dm.com.br/materias/show/t/espelho_do_mercado_de_trabalho_no_brasil

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Passando a limpo

O cenário econômico vem dividindo espaço com o político, principalmente no Brasil, isto porque ambos encontram-se mergulhados em crises. O econômico por conviver diretamente com os efeitos nefastos da crise financeira mundial, enquanto que o político por conviver com o peso de uma crise moral.

Para muitos, o cenário político não provoca nenhum reflexo ao cenário econômico, enquanto que, para outros, não há como dissociá-los. Na economia brasileira, os desmandos das administrações públicas, somados aos dos parlamentos, têm afetado diretamente as contas públicas, contribuindo para o desequilíbrio fiscal de seus entes federados.

Como se não bastassem as verbas de gabinetes mal aplicadas e o excesso de diretorias no Senado, agora vêm à tona os gastos com publicidade e propaganda do governo federal, que superam a casa dos R$ 2 bilhões ao ano e, também, os gastos com passagem aérea dos congressistas, cujo valor por cabeça fica em R$ 33 mil mensais, o suficiente para cobrir os gastos diários de cada um, com a vinda pela manhã de seus Estados para trabalhar e o retorno no período da noite para esses mesmos Estados.

O gasto mensal com passagens aéreas, considerando a existência naquela casa de 500 deputados federais, soma R$ 16,5 milhões por mês e R$ 198 milhões por ano. Considerando que o gasto não seja aumentado nos próximos quatro anos, só no segmento de passagens aéreas, aquela Casa de Leis irá consumir dos cofres públicos R$ 792 milhões. Pergunta-se: a produção nesta Casa de Leis compensa tal gasto a ser pago pela população brasileira? A meu ver não, isso sem contar com os outros gastos ainda não levantados pela imprensa.

Pergunto: isto de fato acontece? Vir pela manhã para trabalhar junto às grandes causas que a nação espera e retornar à noite, exaustos pelo clima dos debates que naquela casa se aflorou. Ou não? Pelo visto, chegam às segundas e continuam retornando às quintas-feiras, em meio aos escândalos patrocinados por grande parte dos membros daquelas casas, totalmente descompromissados com o que o regime democrático requer.

Quem paga a conta desta farra? Nós, brasileiros. A que preço? Com uma das maiores cargas tributárias do mundo, prejudicando não só a produção e a comercialização dos produtos pelas empresas, como também o bolso dos trabalhadores, sobretudo os de baixa renda, que, não tendo como manter consultores tributários, comprometem, se não toda, grande parte de suas rendas, com o pagamento dos impostos indiretos, que também incidem sobre os alimentos, vestuários e/ou serviços de energia elétrica e o saneamento básico.

E o que diríamos dos serviços prestados pelos entes federados nas suas mais variadas esferas de atuação? São de péssima qualidade, principalmente aqueles relacionados à satisfação das pessoas de baixa renda, a saber: educação e saúde.

E o que dizer da segurança? Esta não perde em nada para as duas primeiras. Por quê? Por um lado não se dá ao policial o devido treinamento e as condições psicológicas, materiais e financeiras para o exercício de suas profissões de forma plena. Por outro, as políticas públicas adotadas pela autoridade monetária não vêm estimulando o aumento da atividade econômica e por conseguinte a consolidação de novos empregos, leia-se (saldo entre admissões – demissões). Percebe-se uma relação direta entre o aumento do desemprego e o dos índices de violência verificados no País.

Nada como dar início a um processo de passar a limpo os poderes constituídos no Brasil. Em Goiás, demos início a este processo em 1998, como se os fatos anteriormente ocorridos não voltassem a se verificar nos anos subsequentes. Tomando como exemplo a gestão da Celg, percebe-se que não houve mudanças, tudo continua como antes. Passivos crescentes e a descoberto, ano após ano, colocando em cheque a própria contabilidade pública e o papel das auditorias independentes, como em matéria veiculada na imprensa, tendo como principal devedor o próprio Estado. Mais quem é o Estado? O Estado não tem dono e as responsabilidades de quem o dirige se esgotam em quatro, oito, 16, 20 ou mais anos, se a população assim o entender. Deveria ser sempre assim? Não, se o parlamento responsável pelo julgamento das contas destes governos as julgasse de forma técnica e não política. Como não o fazem, tudo continua como antes na terra de Abrantes. E o que vem depois? Dão início a movimentos, principalmente junto às esferas de poder, para a volta daqueles que um dia já estiveram lá? Isto acontece pela inexistência de novas lideranças? Não, pelas benesses que lá existem e pelo custo financeiro para se chegar lá.

O que tem a crise financeira mundial a ver com as questões aqui levantadas? De forma direta nada, mas indiretamente sim. Por quê? Com a crise, a insegurança se instala tanto nos mercados financeiros como nos produtivos, reduzindo assim as possibilidades de financiamentos para que os segmentos de bens e/ou serviços operem com tranquilidade.

No primeiro trimestre deste ano, as empresas já acenam com a redução de 33% de seus investimentos em bens de capital, seguidas de perto pela atividade comercial, que tende a reduzir seus negócios em até 32%. Os maiores impactos ocorrerão na atividade econômica e nas receitas tributárias dos Estados.

Concluindo: se não bastassem os problemas de ordem econômica e financeira trazidos pela crise e tantos outros de ordem moral, provenientes das instituições democráticas brasileiras, teimam em não sair dos noticiários, alimentando não só a instabilidade do mercado como também a indignação da sociedade.

Disponível em: www.dm.com.br/materias/show/t/passando_a_limpo

sábado, 28 de março de 2009

Nem tudo são flores

Na esteira da crise financeira internacional, muitos foram os setores afetados na atividade econômica, ampliando assim os problemas anteriores a este processo de estrangulamento das economias, depondo principalmente contra o emprego e os níveis de renda em uma ciranda global.
As maiores perdas ocorreram no setor financeiro, ocasionando o fechamento de instituições financeiras de grande peso no mercado americano e causando estragos em toda União Europeia. O continente asiático, puxado pela China e, em um segundo plano, pelo Japão, também se sentiu ameaçado.
Os maiores problemas da crise vieram com os estoques, conhecidos como os maiores vilões dos preços e taxas de lucros das empresas, que atuam em uma economia de mercado. Estoques altos significam excesso de oferta e baixa demanda. O risco dos empresários assenta a princípio no fato de se verem obrigados a reduzir seus preços e, consequentemente, suas margens de lucro. Mantendo após estas ações seus estoques ainda permanecendo altos, não veem outra alternativa senão a de reduzir ainda mais seus preços, suas taxas de lucro e, porque não dizer, o número de empregos diretos, também conhecidos como aqueles cujos trabalhadores detêm suas carteiras assinadas.
Não obstante as novas ações, permanecendo os estoques, não restará outra alternativa senão a de reduzir os seus preços abaixo dos preços de custo e fechar suas portas; taí um dos grandes problemas de uma economia em recessão ou que porventura venha a caminhar para ela.
Assim ocorrendo, caem a renda dos empresários, as receitas tributárias e previdenciárias dos governos e, o pior, postos de trabalho são fechados. A princípio se aumenta a informalidade, o agravamento ainda mais da situação passa a refletir na segurança dos cidadãos, já que pais de filhos famintos não veem outra alternativa senão a de se lançar na marginalidade.
Ao se verem mergulhados no fundo do poço, agarram a primeira oportunidade que aparece nestes locais e passam do furto de pequenos bens, para saciar a fome de seus filhos, a integrantes de quadrilhas organizadas que atuam em todos os ramos, principalmente os relacionados às drogas. O resultado assistimos quase todos os dias nos crimes praticados nas grandes cidades, cuja divisão entre ricos e pobres é cada vez mais latente.
A solução para questões como estas não está só no armamento dos setores policiais, mas sobretudo em criar condições de inclusão social pela produção. Produção que, por sua vez, casa com taxas de juros subsidiadas, carga tributária reduzida, subsídios fiscais, enfim, situações que se traduzam em ganhos de oportunidade para que os recursos das empresas desloquem também dos mercados financeiros ou de paraísos fiscais e adentrem os setores produtivos, mobilizando ainda mais os fatores de produção.
O reflexo direto desta opção pela produção pode ser visto nos efeitos multiplicadores que permeiam estas economias e que se materializam em abertura de novos postos de trabalho com carteira assinada, aumento das receitas tributárias e previdenciárias dos Estados, maior consumo, novos investimentos e maiores níveis de renda.
Como nem tudo são flores, em tempos de crise oportunidades se fecham e oportunidades se abrem. A necessidade de olhar o macro e tomar as decisões no micro abrirá portas para mais e mais economistas, cuja finalidade de contratação está em dar aos empresários as melhores condições para a tomada de decisões, no que tange a realização ou mesmo a manutenção de seus investimentos.
Para que as empresas se estabeleçam em tempos de crise e mesmo fora delas, irão necessitar também de um setor contábil diferenciado, que, muito mais do que debitar e creditar, possa auxiliar os empresários na tomada de decisões através de análises e controles gerenciais permanentes.
Portanto, o que é bom para um segmento pode ao mesmo tempo não ser para outro. A melhor maneira de trabalhar para vencer os obstáculos colocados nos mercados é acreditar que produzir de olho nas demandas destes mercados é melhor do que alimentar as condições de especular. A riqueza formada nos setores produtivos combina lucros com oportunidades de inclusão social, sem a necessidade de políticas por parte dos governos de caráter assistencialista, que na verdade em todas as esferas de poder tem muito aspecto eleitoreiro do que propriamente de inclusão.
Se fosse o contrário, ano após ano, as necessidades assistencialistas seriam reduzidas pela entrada dos trabalhadores que se encontravam à margem da sociedade na atividade produtiva, tendo em vista que, no período em que recebiam assistências por parte das administrações públicas, viessem a de fato se capacitar para o atendimento crescente das demandas dos mercados.
Tanto no Bolsa Família quanto nos programas de assistência estaduais, como o cartão Renda Cidadã, vemos o contrário. Recursos do Fundo e Amparo do Trabalhador são gastos para capacitar pessoas nestas condições na maioria das vezes em habilidades cujos mercados estão cheios ou mesmo em funções que estes mesmos mercados já não demandam.
O resultado está no aumento de necessitados e não em sua redução. Nada contra este tipo de programa, desde que ele de fato inclua trabalhadores no mercado. Agora, continuar servindo como muleta para grande parte da classe política se perpetuar à frente dos poderes Legislativo e Executivo no País, não terão deste autor o mesmo apoio e muito menos da população.
A lógica está em propiciar meios para que o número de empregos cresça nas economias e que os trabalhadores estejam aptos a buscá-los nos mercados e não que os programas assistencialistas alimentados por políticas monetárias restritivas continuem ampliando os bolsões de miséria e a dependência de políticas populistas nas economias de modo geral.

Disponível em: http://www.dmpress.com.br/materias/show/t/nem_tudo_so_flores___jlio_paschoal

terça-feira, 24 de março de 2009

Nem tudo são espinhos

Os últimos dias têm sido marcados no País por notícias provenientes da crise financeira internacional e de escândalos produzidos por agentes políticos e/ou mesmo de integrantes das estruturas legislativas que os acomodam.

A sociedade, atordoada com tantos desmandos, continua sua caminhada rumo à sobrevivência, a economia continua apresentando altos e baixos em função da integração própria de um mercado globalizado.

As ações no sentido de debelar a crise seguem em parte o receituário das economias mais afetas, diga-se de passagem a norte-americana e a europeia, que já convivem com o processo de recessão pelas quedas contínuas de suas atividades econômicas, com prejuízos declarados aos setores financeiros, produtivos e representantes de mão-de-obra.

As economias emergentes, cada uma a partir dos cenários em que se encontram mergulhadas, vão lançando suas políticas públicas no sentido de debelar os efeitos da crise e ao mesmo tempo manter suas metas de inflação dentro de patamares previamente estabelecidos.

No Brasil, o Plano Real, no próximo dia 30 de março, completará quinze anos de existência, podendo comemorar a estabilização monetária, quando comparado aos planos que o antecederam. O lado que não se pode comemorar do mesmo foram as tentativas absurdas de retirar do Estado seu grande papel, ou seja, o de intervir na economia, para que a renda não sofra os percalços que temos presenciado principalmente em tempos de crise.

Os representantes das escolas neoliberais, seguindo o receituário das economias mais ricas, lideradas pelos norte americanos e os ingleses, passaram a defender, nas décadas de 70, 80 e 90, que o “Welfare State” tinha cumprido o seu papel no processo de desenvolvimento na economia mundial. A partir daí, deveriam se concentrar nas atividades voltadas à educação, saúde, segurança e infra-estrutura, deixando as demais atividades a cargo do setor privado.

A princípio, os resultados foram um tanto quanto satisfatórios em razão dos cortes de repasses na forma da Lei nº 4.320/64, às estatais, como subvenções econômicas para aumento de capital, terem deixado de sangrar o Tesouro Nacional e os estaduais, o que acabou contribuindo para o alcance do equilíbrio fiscal na maioria das unidades da Federação.

Outro dado positivo foi a privatização de setores considerados estratégicos, como o de telefonia fixa e móvel, que passariam a requerer vultosos dispêndios para se adequar à concorrência, sem deixar de mencionar o fato que ainda funcionavam como cabide de empregos para os representantes dos parlamentos e dos executivos da administração pública.

O lado negativo foi o fato do plano não vislumbrar uma política de crescimento para economia, deixando tão somente o governo que o elaborou e os que sucederam amarrados apenas ao controle da inflação.

A opção inicialmente por uma política monetária expansionista em um regime de câmbio fixo, por um lado elevou a renda interna e favoreceu as importações para o controle inflacionário. Por outro, tornou a economia vulnerável a crises em razão da perda de reservas internacionais para cobrir o déficit do Balanço de Pagamentos, fato verificado diante da crise do México, da Rússia e da Ásia, com maior intensidade. Após esta, o regime de câmbio passou a ser flutuante e a política monetária, restritiva.

O resultado foi a melhora do componente externo favorecido pelo aumento das exportações e das reservas internacionais e prejuízo ao componente interno face às políticas públicas provenientes do Banco Central, de neutralização do aumento da base monetária, no intuito de combater a inflação de demanda, que poderia ser alimentada pelo aumento do consumo, em razão da extensão dada ao crédito para compensar taxas de juros elevadas, quando comparadas com a de outros mercados.

Por um lado, estas ações alcançaram êxito, mas, por outro, contribuíram para alimentar a crise ora instalada e manter a taxa de desemprego nunca inferior a 5%. Os reflexos podem ser vistos na instabilidade do mercado de trabalho e na ampliação da economia informal, que, dentre outros problemas, vem promovendo a evasão fiscal. Para compensar, o governo federal optou por manter uma das maiores cargas tributárias do mundo, 37% do Produto Interno Bruto.

Nem tudo são espinhos; houve ganhos como os comentados acima, mas o problema é que as perdas implicaram, no decorrer de sua operacionalização, implicações negativas aos mercados de câmbio, monetário e o de bens e serviços.

Disponível em: http://v7.dm.com.br/materias/show/t/nem_tudo_so_espinhos___jlio_paschoal

quinta-feira, 19 de março de 2009

Salvo pelo gongo

O recuo de 3,6% do Produto Interno Bruto no Brasil, no quarto trimestre de 2008, em relação ao mesmo período de 2007, levando em conta o ajuste sazonal, mostra a gravidade da crise financeira mundial. Como mencionado em outras oportunidades, os setores mais afetados, até aquele momento, foram o de veículos automotores (passeio e utilitários) e o de eletroeletrônicos.

O setor industrial caiu, no período, 7,4% seguido pela agropecuária com 0,5% e o setor de serviços com 0,4%. Situação verificada por duas razões: a primeira pela insistência do Banco Central de trabalhar com taxas de juros reais bem superiores à média cobrada nos países desenvolvidos e naqueles que estão em processo de desenvolvimento, devido à retração do crédito na economia, prejudicando os principais segmentos multiplicadores de emprego e renda, sendo destaque: o industrial e o comércio atacadista e varejista.

A opção por uma política monetária restritiva ao longo dos últimos seis anos vem custando caro para o governo, pois resultados como estes, em um momento em que a candidata chapa-branca já está nas ruas para o ganho de popularidade não são bem-vindos.

Não obstante os resultados negativos da política econômica, outros, como a farra da Câmara e do Senado federal, seguido, de perto, pelas Assembleias Legislativas e Câmaras de Vereadores, no que tangem à utilização de verbas públicas para cobrir gastos pessoais ou mesmo de empresas particulares, teimam em não sair das manchetes policiais refinadas, haja vista que os julgamentos são realizados em fórum especial.

A solução para o problema vivenciado pelos parlamentos será mais rápida do que os problemas advindos da crise financeira internacional, isso porque as notas fiscais do início do mandato e de mandatos anteriores não serão de domínio público e nem passarão pelo crivo dos Tribunais de Contas. As futuras serão ajeitadas como tantas outras na forma da lei para que, no papel, sejam eivadas de moralidade. A verba de R$ 15 mil do Congresso Nacional deve ser extinta e, muito provavelmente, absorvida no salário dos parlamentares, mantendo, com isso, um gasto incipiente anual de R$ 6,8 bilhões aos cofres públicos pagos pelo setor produtivo e pela sociedade de maneira geral em razão de uma das maiores cargas tributárias do mundo, igual a 37% do Produto Interno Bruto do País.

Os gastos dos Legislativos estaduais e municipais ficam em torno de 70% dos gastos do Congresso Nacional, ou seja, R$ 4,7 bilhões por ano ou um pouco menos, o que, na verdade, não importa muito, porque a relação custo-benefício para o cidadão brasileiro é alta, já que nestes locais são elaborados projetos bastante interessantes, dentre eles: títulos e mais títulos de cidadania, várias medalhas de honra ao mérito, ridicularizando aqueles que, no passado, de fato, as receberam por relevantes serviços prestados aos municípios, Estados e à nação. Não se incomodem; isto é o Brasil.

As revoltas no Brasil normalmente se tornam mais latentes de segundas as quintas-feiras, período em que os parlamentares estão em plenário discutindo as grandes causas e que os cidadãos indignados com as notícias provenientes destas casas de leis e daqueles que os deveriam fiscalizá-los se debatem nas ruas, nos bares, nas calçadas e mesmo em suas casas, sobre os absurdos ouvidos na semana.

Nas sexta-feiras, tudo passa a fazer parte do passado, os parlamentares voltam para suas bases eleitorais para serem ovacionados por aqueles que dependem diretamente dos recursos advindos de grande parte das verbas destes gabinetes ou mesmo das administrações públicas, enquanto que os cidadãos, em tom, na maioria das vezes, de desabafo, pelas dificuldades em que vivem, vão para os estádios de futebol ou mesmo ficam nas televisões de suas residências buscando outras distrações inclusive a Fórmula 1, que retorna dia 29 deste mês, para o deleite de seus aficcionados, inclusive deste autor.

As manchetes dos jornais relembrando ou batendo nos mesmos temas que nos deprimem, já não causam tanta indignação, porque os resultados práticos dos trabalhos realizados pelos órgãos competentes como o da Polícia Federal, na maioria das vezes, acabam sendo em vão. Que o digam tantas e tantas operações deflagradas com pouquíssimos resultados práticos, quando passados às mãos da Justiça, que ,por legislações ainda passíveis de ajustes, mas que não foram ajustadas em razão do montante de projetos sérios existentes no Congresso Nacional, ainda não puderam ser votadas, deixando, com isso, a própria Justiça de mãos atadas e os cidadãos de bem descrentes com suas instituições.

O incrível é que o resultado dos parágrafos anteriores, embora pareçam que não estejam ligados à economia, tem tudo a ver com ela, porque mexe diretamente com o bolso do cidadão, que paga imposto e com a conta-corrente das empresas que investem, produzem e geram renda e empregos, mais que, em tempos de crises, como esta, e de políticas monetárias restritivas, patrocinadas pela autoridade monetária, combinadas com incertezas presentes no mercado financeiro, acabam travando a atividade econômica, reduzindo a capacidade instalada dessas empresas, fechando oportunidades de trabalho e reduzindo as arrecadações de todas as esferas de governo. O que não caem são as despesas governamentais, até porque, nos orçamentos públicos, as receitas são estimadas e as despesas fixadas.

O não-cumprimento na íntegra da Lei de Responsabilidade Fiscal tem feito com que o empenho de despesas públicas, sem o valor correspondente de recursos, seja ainda autorizado, comprometendo o equilíbrio das contas públicas. Para se ter uma ideia, no ano de 2008, os restos a pagar do Estado de Goiás superaram a casa dos R$ 600 milhões. Pergunta-se qual foi a atitude da Assembleia Legislativa em relação ao balanço geral do Estado daquele ano e de anos anteriores em que o fato se repetiu? Será que o déficit fiscal superior a R$ 130 milhões realmente foi liquidado? Será que a intenção de investimentos veiculada nos jornais para os próximos dois anos se concretizará? Para se ter uma ideia, o PAC disponibilizou apenas 45% dos recursos planejados para o ano.

Concluindo, para não cansá-los, apesar dos senões, a economia brasileira, em 2008, foi salva pelo gongo; cresceu 5,1%. No entanto, a demanda interna por máquinas e equipamentos no quarto trimestre caiu 9,8%.

Disponível em: www.dm.com.br/impresso/7801/opiniao/67106,salvo_pelo_gongo

sábado, 7 de março de 2009

A escalada das taxas de juros e a redução do crédito no Brasil

A abertura da economia por um lado trouxe oportunidades de negócios aos países, mas por outro dificultou as ações dos Bancos Centrais, responsáveis pela execução das políticas monetárias em decidir sobre as taxas de juros. Isto porque não basta olhar o que vem ocorrendo apenas internamente, mas principalmente o comportamento das taxas de juros no mercado externo.
Os recursos alocados para empréstimos internos advêm de todos os mercados, razão pela qual não se pode ter como referência apenas o comportamento do próprio mercado. O spread bancário (diferença entre o valor de capitação de recursos e de seu empréstimo) varia de acordo com o comportamento da economia internacional e também em função dos indicadores de segurança dos países tomadores de capital no mercado.
Para além dos problemas inerentes à capitação de recursos, outras variáveis influenciam diretamente no comportamento das taxas de juros. A principal se refere à “assimetria de informações”, que nada mais é do que um corte feito na vida do tomador do empréstimo no momento que este solicita os recursos nos agentes financeiros.
As instituições financeiras adotam este comportamento no sentido de avaliar até que ponto o credor tem ou não condições de honrar os compromissos que pretende assumir. Como o corte é feito apenas naquele dia, e o que esta por vir não é possível ser levantado naquele momento, as instituições financeiras trabalham com uma margem de segurança, com o objetivo de minimizar as perdas de seus recursos. É por esta razão que a taxas de juros para o consumidor e para as empresas ficam muito acima das expectativas destes agentes.As taxas de juros cobradas no mercado brasileiro demonstram o tamanho da desconfiança destas instituições financeiras em relação a seus clientes. Os juros do cheque especial estão na casa de 172% ao ano, o crédito pessoal não sai por menos de 50%, no mesmo período, o financiamento às empresas, que atuam no setor de produção e ou serviços é de 30% ao ano, enquanto o financiamento para aquisição de veículos em que pesem os problemas vivenciados pelo setor neste momento de crise é de 30% ao ano.
O alto custo dos recursos no País fica mais evidente quando nos referimos à meta traçada pela própria instituição responsável pela execução desta política monetária, ou seja, o Banco Central. A previsão para o ano gira em torno de 4,5%. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), usado como referência para o sistema de metas, deve ficar entre 4,5% e 4,8%, isto em razão da desaceleração da atividade econômica e devido também em função da queda dos preços das commodities.
A questão que se coloca é que, até que ponto o Banco Central pode influir nas decisões das instituições financeiras sobre o seu controle? Muito, primeiro porque é esta instituição que traça o tipo de política monetária será adotada, podendo optar por uma política expansionista ou restritiva. A expansionista leva a uma queda das taxas de juros e a um aumento do produto agregado da economia, enquanto que a restritiva leva a um aumento das taxas de juros ou a sua manutenção em patamares elevadíssimos, prejudicando sobretudo o setor produtivo. Segundo porque esta instituição exerce um controle diário sobre ações dos bancos comerciais e financeiras, no intuito de levá-las a operar apenas com os recursos disponíveis em suas carteiras.
É comum estas instituições apresentarem em seus balancetes algum tipo de operação descoberta, o que as leva a fazer operações de redesconto para saneá-las, para tanto são penalizadas pelo Banco Central, quando este procedimento é adotado. Tudo em nome de garantir segurança em um setor altamente instável.
Ao nos depararmos com taxas de juros tão altas como referidas anteriormente, podemos concluir que o Banco Central fez opção por qual política monetária? A restritiva, é claro, no sentido de conter de forma mais rápida as taxas de inflação e de forma direta ou não acabar garantindo alta lucratividade ao setor financeiro.
Estaria ou não sendo injusto ao fazer esta afirmação? Se comparar as práticas neste setor do governo atual em relação ao finalizado em 2002, sim. Porque as taxas de juros que remuneram títulos públicos e que, também, servem de referência para os juros de mercado, naquele período chegaram a 29%, levando o cheque especial para algo em torno de 182% ao ano. Atualmente a Taxa Selic, responsável por remunerar estes mesmos títulos públicos estão em 12%, como vimos anteriormente, fazendo com que a taxa de juros do cheque especial seja de apenas 172% ao ano.
O problema é que ao comparar as taxas de juros praticadas atualmente no País com a de outros mercados, se percebe o quanto são abusivas, daí entender que minha afirmativa não é injusta. Na verdade a política monetária traçada pela autoridade monetária, para conter e ou manter as taxas de inflação em patamares inferiores a 5% ao ano, tem dificultado o crescimento do produto agregado da economia e beneficiado tão-somente o setor financeiro, proporcionando a estes taxas lucros muito acima das expectativas do próprio mercado globalizado.
Como se não bastasse este tipo de problema, outro foi eclodido no mercado, a crise financeira mundial, trazendo mais instabilidade ao mercado financeiro, com isso os spreads ficaram mais caros, houve uma retração ainda maior no crédito. Para se ter uma idéia, no Brasil, dos R$ 84 bilhões disponíveis em 2008, existem apenas R$ 75 bilhões disponíveis no mercado, a queda alcançou 11%, podendo reduzir ainda mais.
Os reflexos mais imediatos são: queda na atividade econômica em todos os setores e o aumento das taxas de desemprego, que já superam a casa de 7%.Concluindo, existe uma relação direta entre a política monetária adotada pelo Banco Central, a escalada das taxas de juros e a redução de crédito na economia brasileira. A crise é apenas mais um componente, para tentar explicar o descompasso existente entre as taxas de inflação, a disponibilidade de crédito, os níveis de crescimento alcançados e as taxas de juros cobradas no mercado interno.

Disponívem em: http://www.dm.com.br/impresso/7790/opiniao/66104,a_escalada_das_taxas_de_juros_e_a_reducao_do_credito_no_brasil